Igreja Presbiteriana Paulistana
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Mensagem: A manjedoura, a cruz e o túmulo vazio

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Pregador: Dr. Alderi Souza de Matos

1João 4.7-14

Introdução

  • Está se aproximando mais um Natal. Muitos cristãos têm reservas quanto a participar dessa festividade tão repleta de acréscimos culturais e preocupações materiais. Mas o fato é que a existência dessa data é mais um testemunho da influência do cristianismo no mundo e também uma valiosa oportunidade de testemunhar de Jesus Cristo a outras pessoas.
  • Quando se pensa sobre o significado mais autêntico do Natal, ele é associado com a vinda do Filho de Deus ao mundo – e isso está correto. O Natal é a celebração da presença do Verbo eterno de Deus entre nós. Porém, é importante lembrar que o nascimento de Cristo não foi um fim em si mesmo, mas estava indissoluvelmente ligado a outros eventos igualmente importantes no plano redentor de Deus – sua morte e sua ressurreição.
  • Os livros escritos por João (evangelho e epístolas) fazem essa importante conexão entre o nascimento, a morte e a ressurreição de Jesus (a manjedoura, a cruz e o túmulo vazio). Vamos refletir sobre esse tema à luz do capítulo 4 da Primeira Epístola de João, no qual encontramos três referências diretas à vinda do Filho de Deus ao mundo e seus objetivos.

1.    A radicalidade da encarnação

  • Um dos objetivos da literatura joanina é combater uma ideia que surgiu quase no início do cristianismo – a de que o Filho de Deus não se tornou humano realmente. Essa ideia recebeu o nome de “docetismo”, do verbo grego dokeo = “parecer”. Os docetistas diziam que Jesus Cristo não se tornou literalmente humano, não tinha um corpo material e físico, mas apenas uma “aparência” de humanidade. Mesmo depois de sua vinda ao mundo, ele continuou tendo uma existência exclusivamente espiritual.
  • João insiste não só que Deus enviou o seu Filho ao mundo (4.9,10,14), mas que ele assumiu a nossa humanidade no sentido mais pleno do termo. Para não deixar dúvida, ele diz que o Verbo assumiu a natureza humana, que ele se encarnou. Vemos isso claramente no 4º evangelho: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (1.14).
  • Vemos a mesma ênfase na 1ª epístola (“… todo espírito que confessa que Jesus veio em carne é de Deus” – 4.2) e na 2ª (“Porque muitos enganadores têm saído pelo mundo afora, os quais não confessam Jesus Cristo vindo em carne” – v. 7).
  • Alguns docetistas e gnósticos faziam a seguinte distinção: o Cristo divino e espiritual se uniu temporariamente ao Jesus humano. Cristo e Jesus eram dois seres diferentes, sendo que só o personagem humano experimentou o nascimento e a morte, não o Verbo pré-existente e eterno. Daí as afirmações de João: “Quem é o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo?” (2.22); “Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo é nascido de Deus” (5.1); “Quem é o que vence o mundo, senão aquele que crê ser Jesus o Filho de Deus?” (5.5).
  • Mais ainda: não só o nascimento de Jesus Cristo, mas também sua morte e ressurreição testificam sobre a realidade da encarnação: “… o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado” (1.7); “… o que contemplamos e as nossas mãos apalparam com respeito ao Verbo da vida” (1.1; ver João 20.20, 27). Assim, a manjedoura, a cruz e o túmulo vazio se unem para afirmar a radicalidade da encarnação, o fato de que o Filho de Deus entrou plenamente e verdadeiramente na existência humana.

2.    O propósito da encarnação

  • O apóstolo João afirma que Deus enviou o seu Filho ao mundo com um objetivo, para a concretização de um propósito. A encarnação foi instrumental para a realização desse plano. Se o Filho de Deus não tivesse se encarnado, esse propósito grandioso não poderia ser alcançado.
  • João mostra isso usando três expressões diferentes que apontam para o mesmo propósito. O Filho de Deus veio para (em ordem inversa):
    1. salvar o mundo (4.14) – do pecado, da alienação, da falta de significado
    2. ser propiciação pelos nossos pecados (4.10; ver 2.2) – Cristo como nosso substituto
    3. dar-nos vida em plenitude (4.9) – vida eterna
  • A antiga Igreja Oriental, Grega ou Ortodoxa tem um importante conceito chamado “encarnação salvífica”. Segundo a teologia ortodoxa, a própria encarnação de Cristo tem um sentido redentor. Nessa perspectiva, quando o Filho de Deus assumiu a natureza humana ele elevou a humanidade a um novo e mais rico plano de existência.
  • A Reforma Protestante não endossou esse entendimento, afirmando que todos os três – a encarnação, a morte de Cristo e a sua ressurreição – são condições indispensáveis para a salvação. O problema é que podemos cair na tendência oposta: dar ênfase à morte e a ressurreição do Senhor em detrimento da sua encarnação.
  • Isso nos leva ao conceito expresso por Gregório de Nazianzo, um dos famosos teólogos da antiga Capadócia, na atual Turquia: “O que não é assumido não é redimido”. Com isso ele quis dizer que Cristo só pode nos salvar porque se identificou plenamente conosco em seu nascimento, morte e ressurreição. Assim, mais uma vez a manjedoura, a cruz e o túmulo vazio se unem para testemunhar acerca da salvação.

3.    As implicações da encarnação

  • Em sua primeira carta, João mostra que a vida encarnada de Jesus exige algumas respostas de nós. A primeira delas é crer (3.23; 4.16; 5.1,5,10,13). A segunda é confessar (2.23; 4.2,3,15). Inclui arrepender-se, perseverar, obedecer.
  • A terceira implicação ou resposta é amar. O verbo ocorre 26 vezes e o substantivo 18, constituindo uma verdadeira teologia do amor, principalmente no capítulo 4. Algumas afirmações expressam o grande amor de Deus e de seu Filho por nós: “Vede que grande amor nos tem concedido o Pai, a ponto de sermos chamados filhos de Deus” (3.1); “Nisto conhecemos o amor: que Cristo deu a sua vida por nós” (3.16a); “Nisto se manifestou o amor de Deus em nós: em haver Deus enviado o seu Filho unigênito ao mundo, para vivermos por meio dele” (4.9s).
  • Todavia, mais da metade das ocorrências se referem ao amor responsivo que devemos praticar. É aqui que nos deparamos com algumas dos desafios mais inquietantes do evangelho, que nos mostram quão distantes ainda estamos dos padrões de Deus para a nossa vida, quão fracos somos em seguir o exemplo de Cristo em sua encarnação.
  • João nos exorta, não a amarmos o mundo em geral, mesmo porque isso é impossível, mas aqueles que estão perto de nós, os nossos irmãos. Em relação a eles só existem duas alternativas: amar ou não amar (odiar). Quem não ama:
    • Está nas trevas: “Aquele que diz estar na luz e odeia a seu irmão, até agora está nas trevas” (2.9).
    • Não procede de Deus: “… todo aquele que não pratica justiça não procede de Deus, nem aquele que não ama a seu irmão” (3.10).
    • Permanece na morte: “Nós sabemos que já passamos da morte para a vida porque amamos os irmãos; aquele que não ama permanece na morte” (3.14).
    • Não conhece a Deus: “Aquele que não ama não conhece a Deus, pois Deus é amor” (4.8).
  • Positivamente, nós devemos:
    • Dar a vida pelos irmãos: “Cristo deu a sua vida por nós e devemos dar nossa vida pelos irmãos” (3.16).
    • Amar com ações concretas, não só com palavras: “Não amemos de palavra, nem de língua, mas de fato e de verdade” (3.17s).
    • Amar como Deus nos amou: “Se Deus de tal maneira nos amou, devemos nós também amar uns aos outros” (4.11).
    • Amar como fruto da obediência: “Nisto conhecemos que amamos os filhos de Deus: quando amamos a Deus e praticamos os seus mandamentos” (5.2).

Aplicação

Se queremos celebrar corretamente o Natal:

  • Valorizemos a encarnação do Filho de Deus, essência do Natal. Ela foi condição necessária para a cruz e a ressurreição. A lembrança da manjedoura, da cruz e do túmulo vazio nos ajuda a refletir sobre a grandeza da vinda de Cristo ao nosso mundo material cheio de luta, aflição e dor.
  • Sejamos gratos pela dádiva de Cristo, como expressão da graça de Deus. Compreendamos os horrores dos quais ele nos libertou e a sublimidade de seu perdão, aceitação e vida eterna.
  • Aceitemos os desafios que a autodoação de Cristo nos traz quanto à maneira como devemos nos relacionar com os que estão ao nosso redor.