Apresentação Brasileira do livro Manifesto Cristão de Francis Schaeffer

APRESENTAÇÃO À EDIÇÃO BRASILEIRA DO LIVRO MANIFESTO CRISTÃO de Francis Schaeffer

[Editora Refúgio, 1985]

 

A primeira questão é: porque é pertinente ao momento brasileiro, em 1985, a publicação do "Manifesto Cristão? Ao lado de razões ainda maiores, mais importantes, às quais me referirei, aponho duas que parecem mais convincentes. Estamos presenciando uma mudança estratégica do poder que mantém o atual sistema e temos ainda frescas e mal curadas as feridas causadas pelo despotismo, ainda sem perceber mudanças substanciais nos seus representantes. Muito já se mudou, mas é apenas a ponta do "iceberg". A outra razão é que temos à frente a promessa de uma Constituinte. Queira Deus não seja mais outra frase cunhada pelo poder, oferecida ao povo para as ovações do "pão e circo". Por isso, para que não seja mais uma oportunidade de recrudescimento, nem a opção de deslumbramento da liberdade decaindo para a anarquia, é preciso deixar escrito um manifesto cristão.

 

Esse manifesto cristão não deve ser a apologia de qualquer forma política; nem a "esquerda", nem a "direita", nem numa teocracia. É, antes, a pregação efetiva do Evangelho que marca, muda e orienta as vidas em qualquer dos seus segmentos. Deve haver uma denúncia. Ela foi feita. O livro "Brasil: nunca mais" deixa clara a repulsa por um sistema bastardo cuja sem-nobreza foi ocultada pelo apoio, quer intencional, quer por omissão, de indivíduos e das corporações, apoio esse sempre culposo. Algo, contudo, deve ser proposto, e é aí que nos colocamos. Temos visto por vezes cansativamente sucessivas, alternarem-se as opressões e as revoltas, e temos na mente e no peito a ânsia de fazer valer o poder de Deus, como nas palavras de Jesus, “na terra como nos céus”.

 

Deixamos clara a nossa discordância com todo e qualquer modelo que não esteja comprometido e não seja originário da Bíblia, a revelação proposicional de Deus aos homens. E não nos aliamos com as forças estranhas à verdadeira interpretação dessas mesmas Escrituras, que intentam impor alvos e estratégias repletas de opções iradas, que não podem jamais produzir a justiça de Deus. Gritamos, entretanto, junto a todas as vozes dos perseguidos, dos famintos e sedentos de justiça, como cobeligerantes que somos. Clamamos que desejamos a vida, e que a desejamos na dignidade com que foi revestida pelo nosso Criador quando nos fez “à Sua imagem e semelhança”. Nosso grito será sempre o do Evangelho da salvação pela graça, mediante a fé, através do sacrifício redentor de Jesus Cristo, que pelo Espírito nos confere o novo nascimento para a realidade eterna. Só um grito como esse estará presente em todos os lugares e situações onde estejam as necessidades dos homens.

 

Não se trata de “modelo importado”, mas é a aplicação dos conceitos universais do Reino de Deus, o reino de todos os tempos, exaradas na Palavra, para que o cidadão dos céus seja me tudo um cidadão dos atuais limites “espaços-temporais, a fim de espelhar na terra a glória de Deus. O Dr. Schaeffer aplicou à realidade da Europa e da América, como, também nós, o podemos fazer à luz da realidade brasileira. Devemos reconhecer que somos povo e nação e que como cristãos, cabe-nos retraduzir o Evangelho para a nossa geração, retraduzindo-lhe, entretanto, a forma, sem jamais perder seu conteúdo proposicional verbalizado.

 

A questão brasileira não é, porém, alheia à totalidade das situações vistas pelo Dr. Schaeffer. Assuntos bem latinos são abordados no seu livro, da mesma formado como muitos outros assuntos universais que também nos dizem respeito. Mas vai até além disso a proximidade com nossa história e formação. Nós a veremos quando buscarmos uma visão global da cultura brasileira, e não apenas relatos manipulados que nos mantém em compartimentos estanques de informação. É assim que nos conduz o autor, a pensar por antítese sobre um mundo que existe realmente, como um sistema de causa e efeito aberto, e considerando-o criado por um Deus pessoal, infinito, transcendente-imanente, soberano, justo e bom. Não poderemos perder de vista durante a leitura deste livro, que a história do Brasil está umbelicalmente ligada à história européia e irmanada à norte-americana, delas diferenciadas nas transformações que lhe foram próprias.

 

As forças internacionais que, nos meados do século 16 motivaram as grandes expansões do comércio mundial, não estavam distanciada das fermentações filosófico-religiosas. Antes, elas vinham no bojo do tempo armazenadas como uma só carga em busca de portos que em “milagres”, suprissem as necessidades prementes de povos e governos. Na época da “descoberta” do Brasil, a Renascença era um pensamento monolítico perpassando as mentes, como se fosse uma verdade sempre estabelecida e incontestável. Na verdade, o renascentismo era a expressão do embrionário pensamento humanista (em formação desde à Queda), que promovia a auto-suficiência do homem, a crença da razão como bastante, na ciência como guia e no progresso como inexorável.

 

O humanismo (e não o podemos confundir com humanitarismo ou humanidade) é uma corrente filosófica oposta à religião que coloca o homem como centro das preocupações universais. Sua forma atual surgiu por volta do 59º século A.C. (talvez o pudéssemos localizar em Platão, 428 a 347 A.C.) com a separação de “fé e ciência”; aparece já modificado no século 13 D.C. *Aquino, 1225 a 1274) expandindo a ideia para “graça separada da natureza”. Nessa altura é que os séculos 15 e 16 concluem pelo que chamamos de “renascimento”, que as obras seriam maiores do que a ; mais tarde já em nossos tempo, outras duas posições logicamente decorrentes das anteriores seriam assumidas: no século 18 (o racionalismo) o homem seria promovida a uma posição superior a Deus, enfraquecendo a Sua razão de ser (a morte de Deus!), e no século 20, com o humanismo já completamente desenvolvido (as duas declarações humanistas), sob a constatação que o homem é referencial insuficiente para si mesmo, a sociedade acaba por ser um novo deus para a humanidade. Para o futuro, as opções parecem se dirigir ou para o misticismo ou o futurismo, como maneis de suprir a necessidade jamais suprida fora de Deus.

 

Foi nas ondas do renascentismo, no mar do progresso, que teve origem a nossa história. Fomos fecundados no ventre das obras – do poder e do prazer – e concebidos num terra distante, longe da fé (do significado e da segurança) do Deus das Escrituras.

 

O comportamento dos expansionistas (Inglaterra de um lado, Espanha e Portugal de outro, e a Holanda e a França isoladas, buscando a própria sobrevivência) era dominado ou pela ou pelas obras. Tal era a motivação dos reformistas e dos da contra-reforma. A nós, nos coube por herança a motivação das obras como conceito filosófico por trás dos interesses da oportunidade. Com o mediterrâneo controlado pelos muçulmanos, o porto Português recebeu toda a atenção requerida para transformá-lo numa empresa promissora. As conquistas vinham sendo feitas desde 1415 (Ceuta) e com o aparecimento dos mecanismos de navegação, melhores barcos, e a escola portuguesa de navegação, até meados dos anos 1.500, Portugal tinha domínios em todo o mundo. Por esse mesmo tempo as posições religiosas e filosóficas já se apontam como determinantes e denunciam, como que na formatação de uma massa crítica com a política e a economia, o consenso que formaria a nossa terra. Vieram os jesuítas, e, como noutras terras portuguesas, induziram a formação das obras, isto é, a pregação da “obediência à obediência”, ao invés da pregação da fé, ou seja, a “obediência à verdade”. Isto resultou em que o brasileiro adquirisse um conceito confuso de fé e obras, como uma imagem interior profundamente arraigada, uma crença básica errada, da qual ele se ufana, tristemente: a sua “índole pacífica”, a lenda de que brasileiro só faz “revolução sem sangue”, e que a obediência irrestrita, impensada, à custa do sacrifício dos valores da verdade de Deus, traz em si mesmo virtude. Certamente a verdade foi abandonada como lastro da formação do homem, uma vez que o próprio humanismo a propôs relativa; e com isso foi-se a coragem, a hombridade e o amor responsável.

 

Além dessa consequência, ainda como uma imagem introjetada, permanece na formação do nosso povo o conceito de ações, posições e tomadas de atitudes baseadas mais em necessidade do que por expressão da verdade. Por necessidade, quero dizer que nossas escolhas permanecem baseadas nas solicitações da comodidade pessoal e abastança (poder e prazer). Ficamos sempre assim ao sabor das vontades mais fortes, dos economicamente poderosos, ou dos mais sagazes, os aventureiros.

 

A vinda da família real para o Brasil foi fruto da necessidade, como uma fuga da invasão de Portugal por Napoleão, em 1808. O clima imposto ao País desde as capitanias hereditárias e o ciclo do açúcar, no século XVI, até o ciclo do ouro e a Inconfidência Mineira, no século XVIII, era o da praticidade e o oportunismo de se extrair do Brasil as suas riquezas, com um mínimo de investimento. As mudanças nas relações com a nova terra não foram, mais uma vez, determinadas por um interesse genuíno em nossa gente e lugar, mas pelas circunstâncias políticas. A proclamação da independência foi mais um caso desses. A ira e a vaidade pelos interesses de um contexto de ideais libertários mundiais. Mas ainda que a liberdade fosse um dom de Deus, sem a Sua verdade estava perdido o objetivo. Para que é mesmo que desejávamos nossa liberdade? Talvez para o exercício de um poder diferente, mas que conservava os mesmos mandatários. A filosofia do poder, as metas do mando, ainda conservadas na independência, promoviam uma cultura de ordem acima do pensamento inteligente e do progresso acima do respeito pelo homem, o que veio mais tarde a ser divisa brasileira. Com a proclamação da República chegamos ao ponto atual na gangorra da liberdade que aprendemos a ter: ora ascendendo a rigidez da elite do poder, ora no alto anseio anárquico das influências racionalistas. É isso mesmo que ocorre quando os princípios humanistas são aceitos como base de vida. Momentos de grande otimismo romântico, sem base suficiente, em tempos bons, cedem lugar a terríveis pessimismo desesperados em épocas ruins. São estes estímulos que ocasionam as oscilações do poder: autoritarismo e anarquia.

 

Se ao invés de determinados por necessidades, fôssemos motivados por expressão de verdade, isto é, por bases absolutas que orientassem posições e escolhas, evitaríamos a manipulação por parte dos poderes e dos aventureiros.

 

Nossas constituintes são marcos bem postos das oscilações a que o Brasil tem sido sujeito. Cada uma das cinco ou seis Constituições que já tivemos mostra a motivação por necessidade. Elas se sucederam de acordo com a conveniência e nem mesmo foram claramente definidas quer na própria natureza, quer nos seus atos, por falta de absolutos de um sistema maior de verdades que as suportassem. A primeira delas foi outorgada por D. Pedro I, depois da dissolução da Assembléia Constituinte de 1823. De conteúdo absolutista, mantendo o catolicismo como religião oficial, a Constituição de 1824 foi também influenciada pelo liberalismo da Revolução Francesa. O imperador, chefe do poder executivo, matinha o direito de designar o Senado vitalício, e de dissolver a Câmara temporária, eleita pelo voto de uma elite minoritária. Sobreveio-lhe a República, e com ela a constituinte que promulgou a Constituição de 1891, baseada na Constituição norte-americana, criando o sistema presidencialista. Revogava as principais características da antiga constituição, separando a igreja do estado, dando autonomia aos Estados, dividindo os poderes, e admitindo o voto popular, ainda que só aos maiores de 21 anos, do sexo masculino. Foi reformada em 1926 e finalmente suprimida pela Revolução de 1930, No período que se seguiu, em 1934 foi promulgada outra Constituição, com características alemãs e espanholas, logo derrubada pelo golpe de 1937; outra Constituição, de 1937, claramente fascista, encerrou a questão abrindo totalmente o caminho para a ditadura de Getúlio Vargas. A mais famosa das Constituições dos País foi a de 1946, era um amálgama das anteriores com a anexação de inúmeras conquistas liberais, mas mantendo o tradicionalismo e a concentração das atividades comerciais e trabalhistas, no estado. Sofreu mais de vinte emendas e, depois do golpe de 1964, cerca de quarenta atos complementares. A última Constituição, de 1967, institucionalizou a exceção e, como talvez parecesse insuficiente para manter o poder, foi praticamente revogada pelo Ato Institucional nº 5, de 1968, que deu origem a outros tantos que passaram a ditar a vida do País. Hoje após a “abertura” estamos de frente à perspectiva de mais uma Constituinte em que base?

 

A falta de absolutos, nenhuma verdade em que se firmar, deixou nossas Constituições entregues às cópias das matérias de outros povos, com a tentativa de liberdades sem o conhecimento completo de suas formas, e, ainda, com suas formas estruturais, mas sem o conhecimento experimental de suas liberdades. Dessa maneira se tornaram frágeis tanto as formas como as liberdades.

 

Conquanto as forças da filosofia e da cultura geral movessem os interesses político-econômicos mundiais no Brasil desde a sua formação, foi em 1945, no após guerra, que um quadro mais definido foi se apresentando. O populismo fomentado nos últimos anos proporcionava ao crescente domínio do dinheiro transnacional, um campo fértil na ingenuidade do povo que “obedecia à obediência” e era ordeiro sem pensar, pensando somente em progresso sem considerar o valor e a dignidade que o próprio Deus conferiu ao homem. Toda a pregação exaltava um socialismo, quer de direita, quer de esquerda, facilitando a luta que a economia mundial fazia para assumir o controle da nação. Pluralismo e limitação, força e autoridade, coerção e consentimento foram se tornando normais no decorrer dos anos de doutrinação populista. E como dentro da filosofia humanista, sem as necessárias bases de verdade, de valores, de tudo que é normal vai sendo transformado e assumido como norma, em breve as divergências políticas eram ameaças gigantescas que justificavam qualquer ação para a manutenção do controle do poder. No Brasil, venceu o bloco do capital multinacional, associando o mando militar à força empresarial oligopolista, que, num clima cultural de posições e contraposições tecnológicas e ideológicas, tomou foros de verdade estabelecida. O “status-quo” era o direito e a religião, formando o cenário para a peça que se desenrolaria nos anos que se seguiriam. Tal foi o sistema nos últimos 30 anos, e mais radicalizado nas últimas duas décadas, em que a elite orgânica (com os mesmos interesses nascidos das necessidades dos povos e governos e, agora, das suas minorias representativas formou um conceito de nacionalismo, de virtude, de ordem e de progresso, que em nada era nacional, nem virtuoso, nem ordeiro e nem progressivo, porque faltou-lhe a verdade que definisse os termos, os conceitos. Vivemos hoje um tempo pós-tecnológico e pós-ideológico – isto é, na verdade, um pós-cristianismo, que no Brasil poderia ser chamado de pós-catolicismo – que reside numa só fórmula, a semântica. O que tem valor não é mais o fato, mas o relato, e o que se diz só mais alto do que a realidade. O que conhece do seu governo são os mentidos e desmentidos que revestem seus atos.

 

A Verdade, que é o ambiente da fé – revelada por Deus nas Escrituras judaico-cristãs – é a única fonte possível de objetivos e estratégias para a vida. Note bem, o ambiente da arte é o que é possível; o ambiente da ciência é o que é provável; e o ambiente da política é o que é prático e oportuno. Cada um desses, porém, tem que ser julgado à luz da verdade, a fim de que não negue a si mesmo. Toda liberdade sem forma é libertinagem, e toda forma sem liberdade é despotismo. O juiz daquilo que é prático e oportuno tem que ser a verdade, doutra forma, passam a servir às necessidades e interesses dos dominadores deste mundo tenebroso.

 

O que propomos com a publicação deste livro em Português é preparar o povo de Deus, a Sua Igreja, e facilitar a todos os homens a sabedoria de Deus, para a expressão do Seu amor, suprindo-nos de responsabilidade, como indivíduos e como corporações (igrejas): à manifestação visível, forte e clara, de que o poder pertence a Deus e Nele está nosso bem estar; a uma posição ostensiva que testemunhe verbal e vivamente, pela prática; a uma posição ostensiva que testemunhe verbal e vivamente, pela prática, todo o conteúdo evangélico em todos os segmentos da vida brasileira; e ao engajamento no amor cristão como responsabilidade diferenciada para com Deus e para com César.

 

Brasília, 23 de outubro de 1985

Wadislau Martins Gomes