mulher usando máscara para sair

Máscaras, mentiras e caras limpas

Recentemente, pedi que nosso funcionário passasse na padaria para comprar pão, e quando ele não o fez, explicou :
-- Não me deixaram entrar porque eu estava sem máscara. Eu disse:
-- Mas tem de usar a máscara sempre que estiver em público.
Ele é bom funcionário, e sempre que vai nos entregar alguma coisa, passa álcool nas mãos e nos objetos, e atende à explicação de Wadislau de manter distanciamento social e não tocar em nós que corremos risco de contágio em tempos de pandemia. Mas insistiu:
-- Eu não uso máscara, não gosto e não tenho. Eu fico sem comer o dia todo, faço oração, e pelo poder de Deus, não vou pegar essa doença.
-- Mas é lei no momento. Não podemos chegar perto de outras pessoas sem proteção; isso protege a nós e a eles.
Fiquei com vontade de citar "Não tentarás o Senhor teu Deus" e o "espinho na carne" de Paulo, ou mesmo dar umas explicações ao irmão em Cristo, enganado por uma falsa expectativa de que jejum e oração anulam qualquer possibilidade de risco à saúde, mas me calei. Apesar dos estudos dizerem que o uso de máscaras protetoras diminui em 70 por cento o risco de doenças transmitidas pelo ar, tem tantas discussões em torno de Covid 19 que não vale a pena começar a falar sobre o assunto. Dei a ele uma máscara e disse que se ele fosse buscar qualquer coisa para nós na cidade, teria de usar. Ele não foi mais buscar pão para nós.
Confesso que a questão do uso de máscaras, para mim, não é apenas por prevenção de respirar ar contaminado. Logo no início da quarentena, caiu uma prótese dentária provisória, e meu dentista não está atendendo. Estou com uma "janela" horrorosa na boca (a meu ver) que só vai ser consertada quando o implantista voltar -- e uma máscara me iguala aos poucos outros que chegam até aqui para nos ver, sem que vejam a boca deficiente que só seria motivo de orgulho se eu tivesse sete anos de idade. Uso a máscara.
Mas concordo que a máscara seja desconfortável, especialmente para quem dorme de c-pap e tem de usar mascara para respirar à noite.
Existem outras máscaras com funções diferentes. No teatro antigo, e em algumas peças infantis, máscaras eram usadas para definir ou encobrir a verdadeira identidade das personagens. Em festas de fantasias ingênuas da criançada, ou maliciosas do carnaval, muita importância é dada às máscaras. E, claro, quando alguém não quer ser identificado por sua vitima, o criminoso tradicionalmente esconde seu rosto verdadeiro com máscaras de todo tipo.
Quando temos todo o tempo em casa e pouco em que trabalhar, confesso que o uso das redes sociais tem sido um hábito e entretenimento constante. E observo o quanto as pessoas usam e abusam das máscaras.
Algumas pessoas usam as redes sociais como máscara para se apresentar belas ou jovens ou poderosas ou elegantes. Outras fazem biquinhos ou poses atrevidas ou exibem pessoas ou causas como muletas ou "provas" de superioridade.
Alguns postam acontecimentos históricos ou viagens turísticas ou fotos de pets ou sua prole, e isso é bom. Mas, há quem deixe de mostrar o que realmente vivem ou pensam. Eu gosto de cozinhar e sempre aproveito quando alguém publica alguma receita ou prato novo, viajo com quem viajou, gosto de história e de animais. Contudo, não creio que postagens que deem falsa ideia de quem somos sejam relevantes para a formação de amizade e crescimento pessoal. Devemos usar de parsimônia em tudo. Tem pessoas que fazem questão de demonstrar que são mais inteligentes, descoladas, politicamente antenadas, espirituais ou fisicamente atraentes (ou estão ligadas a personagens dessas naipes) quando por dentro estão gritando por socorro! Estou sozinho. Não gostam da vida que levam, e preferem viver em reinos de fantasia de qualquer lugar exceto onde realmente estão.
Ganhei uma camiseta dizendo "Que a sua vida seja tão maravilhosa quanto você finge que ela é no facebook". Tenho de admitir que muitas vezes a face que queremos mostrar no facebook é totalmente fake.
Essa verdade não é apenas no mundo secular e não cristão. Tem muitos crentes, mesmo líderes espirituais, que são fakes -- hipócritas. Nos tempos de Jesus, ele os chamava de "sepulcros caiados". Hoje em dia, criticamos quem pensa, age, ou publica em agendas diferentes da nossa, de falsos irmãos. Chegamos a afirmar que não são cristãos. Rotulamos e afirmamos categoricamente aquilo que não estudamos ou não conhecemos bem, e destacamos a grande diferença entre nós e "os outros". Ora, eu creio na Bíblia como Palavra de Deus, e na existência da Verdade Absoluta, mas confesso que fico estarrecida com as afirmativas e declarações de meus amigos facebookianos que tudo sabem e nada creem!
Lembro-me do caso de Moisés, que colocou uma "máscara" (um véu) no rosto porque não queria que as pessoas vissem que a glória do Senhor que era refletida nele estava desaparecendo. Recordo quantas vezes eu e meus colegas, filhos de Adão e filhas de Eva, em vez de sermos autênticos, usamos de subterfúgios, meias-verdades, reticências -- mascaras parciais ou inteiras -- em vez de refletir o caráter da imagem de Cristo em nós. Porque preferimos águas turvas de nossas próprias imagens caiadas, maquiadas, deturpadas, esculpidas sem arestas e sem a realidade da esperança em Cristo!
É apenas voltando para a Palavra de Deus e o Deus da Palavra que conseguimos refletir uma imagem nítida, sem máscaras:
"E todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito (2Co 3.18).